E assim, também a propósito de leituras, e partindo de alguma relação interessante com a região, encontrei pretexto para, neste momento do ano em que há uma sensibilidade especial à valorização dos actos de solidariedade, falar daquele que considero um herói nacional e, mais do que isso, um herói da humanidade: o cônsul Aristides de Sousa Mendes.
Dá-se também o caso de eu entender que uma forma atractiva de se abordar um determinado período ou acontecimento histórico consiste na leitura de boas biografias de protagonistas dessa história, quando aquelas existem e com preocupações de isenção. É talvez uma perspectiva limitada, nem sempre possível, mas muito mais viva, e, por isso, frequentemente entusiasmante. E que até nos leva a pormenores que, por uma razão ou por outra, despertam a nossa curiosidade em saber mais.
Sempre atenta e sabedora desta minha ideia, uma sobrinha e amiga muito estimada – obrigado Aninhas! – fez-me chegar a biografia de Sousa Mendes, “Um Homem Bom” que, ousando desobedecer a Salazar, salvou do Holocausto muitos milhares de vítimas, em tais condições e com tão graves consequências para si e para a sua numerosa família (doze filhos) que muitos consideram até uma atitude de alguma desvalorização apelidá-lo de “Schindler português”. De qualquer modo, a comparação – por se referir a um dos maiores sucessos do cinema – estimula a boa curiosidade.
E não foram apenas refugiados judeus que ele, apesar de conservador e católico, salvou, contrariando ordens superiores e do próprio ditador, ao passar milhares de vistos, em Bordéus e em Bayonne, no início da II Guerra Mundial, como o comprova precisamente o exemplo do poeta e romancista alemão Albert Vigoleis Thelen, procurado pela Gestapo. Como este não tinha meios de subsistência em Portugal, chegou à casa de Teixeira de Pascoaes, em Gatão, Amarante, no dia 1 de Setembro de 1939, onde foi acolhido com sua esposa Beatrice, até 1947, data em que já não era mais possível iludir as suspeitas da polícia política portuguesa.
Sobre o acolhimento de Teixeira de Pascoaes, importa ainda dizer que também o poeta holandês Hendrik Marsman e a sua mulher Rien, possuidores de vistos passados pelo diplomata português, receberam um convite do poeta da Saudade. No entanto, a decisão desta família, de permanecer mais algum tempo em França, viria a ser-lhes trágica e fatal.
Em resumo: de Pascoaes, todos sabemos o nome, e seria bom conhecermos também a sua poesia da “Saudade do futuro”.
De Sousa Mendes, muito já se tem falado. Nada, no entanto, em comparação com o lugar que, de direito, e para exemplo de todos, deve ocupar na história portuguesa contemporânea. E de todo o mundo. E de todos os tempos.

Março 1, 2010 ás 12:22 pm |
Para mim, como holandês, a informação sobre o convite feito por Teixeira de Pascoaes ao poeta Marsman é muito interessante. Há referências na literatura (ou numa biografia de Teixeira de Pascoaes) sobre o contacto entre os dois poetas?
Março 1, 2010 ás 3:09 pm |
Vou contactar amigos, estudiosos do poeta, e a própria família. Em breve direi qualquer coisa ao meu amigo.