
Podia dizer: “faria” 100 anos… Mas este é um dos homens, nascido em Gestaçô, Baião, em 14 de Abril de 1909, cuja mensagem permanece bem viva entre nós.
E apesar de só aparentemente se ter separado deste mundo, na juventude dos quarenta anos, para além de todos os outros escritos, para além da sua actividade social e cultural em benefício dos outros, bastaria ter deixado esse livro notável dos “Esteiros”, expoente maior do movimento literário que veio a chamar-se neo-realismo, para continuar entre nós como um dos portugueses mais ilustres do século XX.
Poucos saberão que, passados quase cinquenta anos da publicação desta obra, Portugal, já nos primeiros passos da democracia, passou pela vergonha de uma queixa oficial e internacional junto do Conselho da Europa, por violar um dos preceitos importantes da Carta Social Europeia que proíbe a utilização abusiva das crianças em trabalhos superiores às suas forças e, por isso, abandonando frequentemente a escola.
Como tive alguma responsabilidade no esforço para retirar as razões e as consequências dessa acusação, ao coordenar a comissão interministerial criada para o efeito, e da qual saiu um projecto de acção que ainda hoje está no terreno, não foram poucas as oportunidades que aproveitei, em acções de sensibilização, um pouco por todo o país, para citar esse primeiro e verdadeiro grito de denúncia de Soeiro Pereira Gomes ao dedicar o seu livro aos “filhos dos homens que nunca foram meninos”.
E foi também a vontade contribuir para a homenagem que lhe era devida na sua terra natal que a Revista “Bayam”, da Cooperativa Cultural de Baião – Fonte do Mel, logo no seu primeiro número (1991) lhe dedicou uma pequena fotobiografia. A mesma Cooperativa lhe fez erigir, a poucos metros de sua casa, um monumento escultórico em granito, da autoria de Armando Martinez, por sinal o mesmo escultor que tem no centro de Vigo a homenagem à grande poetisa e mãe da “Pátria galega”, Rosalía de Castro.
E já que de Baião se trata, fortemente marcado pelas suas múltiplas referências literárias, de obras, escritores e especialistas desta arte, aproveito para dizer que dois dos mais ilustres “queirosianos”, que o concelho considera filhos adoptivos, não deixaram passar em claro a centralidade deste livro de Soeiro Pereira Gomes no movimento literário que representa: Carlos Reis, Presidente da Associação dos Amigos de Eça de Queiroz e membro do Conselho Cultural da Fundação com o mesmo nome (actual reitor da Universidade Aberta) dedicou precisamente a Dissertação do seu Doutoramento ao “Discurso Ideológico do Neo-Realismo Português” (Almedina, Coimbra – 1983), onde, em todo um capítulo, analisa o romance de Soeiro.
Por sua vez, Isabel Pires de Lima, também do mesmo Conselho Cultural, foi a escolhida pelas Edições Avante para nos dar, em jeito de prefácio, uma boa introdução ao neo-realismo e ao livro, que tem ainda a curiosidade de nos apresentar as réplicas da capa e das ilustrações originais, desenhadas para o efeito, por Álvaro Cunhal (Lisboa, 1979), revelando uma das facetas talvez menos conhecida desta figura incontornável da história portuguesa recente.
De registar que, numa pequena entrevista, ao Primeiro de Janeiro, em 10 de Fevereiro de 1943, Soeiro Pereira Gomes, manifestava a intenção de escrever “um romance cuja acção decorrerá entre o Porto e o Marão, no meio onde nasci. Depois, gostaria de escrever contos infantis e obras de divulgação para o povo”.
Tal não aconteceu, infelizmente. Diversas comemorações já foram realizadas e outras estão justamente previstas, associadas, com todo o sentido, ao 25 de Abril. Entendo, contudo, que a melhor homenagem que lhe podemos prestar passa, sobretudo, pela leitura da sua obra.

Monumento em Gestaçô, Baião